7 de outubro de 2008

Pode a mulher praticar o futebol?


A pergunta-título acima foi tirada de um artigo da professora de Educação Física Silvana Vilodre Goellner, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cuja referência bibliográfica completa posso arranjar. Ela se inspira num relato, datado de 1940, sobre o interesse das mulheres gaúchas pelo esporte, e que termina com a mesma indagação: pode o sexo feminino bater uma pelada?

Reparem que o uso da forma verbal “pode” remete ao mesmo tempo para uma questão de capacidade (tem condições?) e de autorização (é correto ou desejável?). Um a um, Silvana desmonta o que chama de “preconceitos historicamente construídos pela nossa cultura”. Critica as representações de masculinidade e feminilidade – a imensa maioria delas criadas por homens –, noções errôneas sobre danos que o futebol poderia causar ao sistema reprodutivo feminino, sobre as diferenças entre personalidades de homem e de mulher e por aí vai.

A pesquisadora mostra que a questão de gênero tem permanecido como um lugar fértil para o homem (sabemos quem é ele hoje?) reforçar seu poder sobre o sexo feminino, imputando-lhe de tudo um pouco: do modelo de beleza ao seu devido lugar no mundo, passando pela maternidade compulsória e a domesticação dos movimentos do corpo (do tipo: “dançar pode, jogar bola, não!).

Isso tudo é importante para a televisão pública, que deve, do ponto de vista ético, contribuir para a dissolução destes clichês, uma vez que o lado comercial da mídia não tem esta preocupação. Pelo contrário, lucra – seja no jornalismo, seja na publicidade – com a padronização de visões de mundo (o que inclui o conceito de gênero).

O futebol, fenômeno cultural complexo, torna-se, portanto, mais um campo para batalhas sobre essa discussão. A participação da mulher, que cresce nas arquibancadas, entre jogadoras, jornalistas, juízas e bandeirinhas (e no sucesso em outros esportes olímpicos) vai agora tomar de assalto um dos últimos estádios em que o homem ainda quer apitar sozinho: a linguagem. Afinal, nós desqualificamos a opinião as mulheres sobre o esporte bretão porque elas não têm o mesmo domínio dos termos que o explicam.

Não têm, mas teriam, se em vez de empurrarmos sobre elas, quando crianças, bonecas e fogõezinhos e, vida afora, toda sorte de reforços sobre o que “deve ser” uma mulher, pudessem escolher como configurar a própria existência nos limites de uma feminilidade sem rótulos. Aos homens, resta sair da retranca e parar de jogar feio.
Alexandre Freire
Iustração do Duke (http://www.dukechargista.com.br/)

3 comentários:

  1. Marina Bandeira07/10/2008 21:01

    Atemporal. A leitura em questão é mais do que um convite à reflexão; é uma provocação inofensiva-intensiva; daquelas que fazem a gente querer entrar no jogo... do futebol!
    Se pode(m)? Deve(m)! Sem dívidas e dúvidas.
    Se há mais de sessenta anos o interesse germinava no imaginário
    feminino, hoje ele invade estádios e estúdios, mostrando que elas vieram pra ficar.
    Uns podem dizer que é puro reflexo da revolução feminista do final do século passado, em que as mulheres queimaram seus sutiãs e vestiram a armadura executiva.
    Outros podem argumentar que a busca por mais um território motiva a conquista desta arena de concreto, onde milhares de corações pulsam pela mesma vitória.
    Nem uma coisa nem outra; na minha modesta - e fêmea - opinião.
    Ainda que não falemos com fluência o complexo idioma do futebol; mesmo que não saibamos a escalação completa da Seleção Brasileira; o que queremos é jogar junto, transformando o futebol em uma arte sem fronteiras. Com muito estilo, charme e sempre de salto alto!

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  2. do salto alto eu não faço questão. tem nada pior que entrar em campo de salto alto, se é que me entende. mas fico muito feliz em ver essa discussão por aqui. futebol é coisa de gente, e ponto. é paixão, é vício, é talento e dedicação.

    ah. e esse texto vai-me ser muito útil num seminário para a aula de gêneros essa semana. amém :D

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  3. Giovanni Kuhn23/10/2008 14:14

    Olá, gostei muito desse texto, sabes como consigo este artigo da Profª Silvana, pois já procurei pela internet e não encontrei.
    Muito obrigado
    giovannikuhn@hotmail.com

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