24 de julho de 2009

O Aranha Negra do Galo


Kafunga, Mão de Onça, Marcial, Mussula, Careca, Renato, Mazurkiewicz, Ortiz, João Leite, Taffarel, Veloso, Diego, Bruno...

Cada atleticano que puxar pela própria memória (e pela lembrança dos mais velhos) descobrirá que o Galo tem, na sua história centenária, grandes goleiros, ídolos da torcida, ocupantes destacados desse espaço marcado pela solidão. Pois como disse Nélson Rodrigues, só ao arqueiro não é permitido falhar.

Cada dois atleticanos discordarão da lista. Serão sempre implacáveis com o guarda-metas, o goalkeeper, o camisa 1. As pontes, os mergulhos, as bolas encaixadas sem rebote, as saídas perfeitas do gol, voo de pássaro sem asas para espantar a esfera de couro, pegar um pênalti, fazer aquela defesa milagrosa. Tudo isso será esquecido diante do erro de quem não pode errar.

Há em torno do goleiro algo único dentro do futebol. Ele e ele apenas pode abraçar a bola. Agarrar-se a ela, encaixá-la, marcar encontros improváveis, diante de nossos olhos, assaltando nossos corações.

Goleiros são culpados, abominados, execrados. Bodes-expiatórios, como o grande Barbosa em 1950, diante de um Maracanã mudo de ressentimento e dor. De quem é a frase que diz que onde o goleiro pisa é tão triste que nem a grama nasce?

Goleiros apontam para o céu, ajoelhados, em agradecimento a um Deus que também brinca de torcer. Como Taffarel em 94.

Ainda que os goleiros estejam presos à grande área, esse pequeno território em que a ação dramática do futebol atinge seu clímax, eles vivem de fato num mundo de sonhos.

Ontem, Aranha, o novo ídolo do Galo, cujo nome homenageia o grande Yashin, o "Aranha Negra", goleiro da então poderosa União Soviética no auge da Guerra Fria, fez o atleticano sonhar.

Depois que as buzinas se esgotaram e os gritos se tornaram roucos, os atleticanos dormiram sonhando com um tempo novo. Tempo em que todas as bolas adversárias encontrarão descanso no abraço do keeper alvinegro.

A galeria de goleiros do Clube Atlético Mineiro parece finalmente ter digno ocupante em tempos felizes de liderança isolada no mais belo torneio do mundo.
Alexandre Freire é jornalista

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